sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Gardens Of The Night (2008)

"Come back", she whispered, "come back, for I love you. Come back again, by night or by day. This door is never shut to you." Mowgli's throat worked as though the cords in it were being pulled, and his voice seemed to be dragged from it as he answered, "I will surely come back."
E assim se poderia contar toda a história do filme, a partir de um pequeno excerto da história de "Mowgli" e o seu Livro da Selva e começo já por elogiar a brilhante metáfora que é feita durante todo o filme entre a comovente história de "Gardens Of The Night" e o famoso conto infantil.

Damien Harris efectua em "Gardens Of The Night" um exercício de consciencialização e de alerta, dos mais sérios que há e enquanto fez isso aproveitou ainda para realizar um soberbo filme. O enredo deste filme acompanha a infância e a adolescência de Leslie Whitehead, uma criança que é inocentemente raptada por Alex (Tom Arnold), um traficante de crianças que encena todo um teatro para fazer Leslie pensar que está tudo bem e que foi o seu próprio pai que pediu a Alex para ficar com ela durante uns tempos. A partir daqui, é dado ao espectador um pouco daquilo que pode ser a experiência de uma criança quando envolvida numa rede de pedofilia. Leslie consegue ainda desenvolver uma relação com outra criança que está sob a guarida de Alex, Donny, que desde logo se torna um irmão para Leslie e juntos vão crescer e tentar dar força um ao outro para ultrapassar aquele pesadelo. Na 2ª parte do filme, é acompanhada a adolescência destas duas crianças, quase 10 anos depois. E é tudo o que vou contar sobre o enredo do filme.

Há muito tempo que vejo filmes e não me lembro de nenhum que me tenha dado um verdadeiro aperto no coração. Damien Harris consegue neste filme explorar aquilo que poderá ser um mundo que para a maior parte de todos nós é totalmente desconhecido e arranca interpretações arrebatadoras de Ryan Simpkins e Jermain Scooter Smith, as duas jovens crianças que são raptadas por Alex. O mundo inocente, angelical e perfeito que juntas conseguem manter, a atmosfera que ambas conseguem criar para que tudo lhes pareça o mais parecido possível com um lar é algo tocante de assistir. A comunicação que estas duas crianças conseguem efectuar com o olhar, não sendo preciso falar muitas vezes, confere aos vários silêncios que o filme tem um poder muito grande.
Depois há a correspondência de Tom Arnold, que consegue uma interpretação digna de muitos e muitos prémios, na pele de um pedófilo hábil e persuasivo. Através dos seus esquemas, consegue que Leslie acredite que tudo aquilo que está acontecer é para bem dela e que o "Tio Alex" está ali para a proteger. Nesta primeira parte do filme, só não se percebe muito bem qual é o papel de Frank (Kevin Zegers) e na minha opinião deveria ter sido muito mais explicitado. Frank é uma espécie de ajudante de Arnold, um jovem revoltado e impulsivo que toma também conta das crianças mas de uma forma nada ternurenta. Fiquei a pensar que ele poderia ser o antigo alvo do "Tio Arnold", pois percebe-se que existe ali uma relação entre ambos, mas nunca se chega a perceber.
Já na segunda parte do filme, Evan Ross e Gillian Jacobs interpretam as personagens de Leslie e Donny como se realmente tivessem sido eles a fazer as versões mais novas das personagens. A transformação está muito bem feita e o trabalho que os actores fizeram foi espantoso. A união e o amor que ambos desenvolveram um pelo outro ao longo do tempo está agora mais expressiva e ambos vivem nas ruas, vagueando sempre juntos e passando ao lado do mundo da droga e da prostituição. Esta perspectiva que o realizador nos oferece do mundo dos sem-abrigo já não é nada de novo, mas os planos de câmara explorados, os diálogos e a interacção que há com outras personagens que vão aparecendo fazem-nos ficar colados ao ecrã.

A banda sonora do filme é perfeita, as músicas são aplicadas nos momentos certos e correspondem aos sentimentos que cada cena me fez sentir. "Gardens Of The Night" é um filme que pais e filhos devem ver juntos, aproveitando a caracterização perfeita daquilo que pode ser a melhor interpretação de um "aliciador de crianças" esta feita por Tom Arnold.
O argumento e os diálogos do filme são simples, emotivos e objectivos. Fazem-nos pensar e sonhar. É impressionante a forma como me vi envolvido no mundo perfeito que aquelas duas crianças criaram como barreira a todo o terror que estava à volta delas. Ainda assim, penso que há certos momentos do filme em que as coisas ficam pouco explícitas e faltavam ali algumas frases que nos ajudassem a entender melhor esses mesmos momentos. De referir ainda a curta mas extremamente competente participação de John Malkovich, homem que vai ajudar Leslie a reencontrar-se na sua vida.
"Gardens Of The Night" é mais um filme que me faz pensar que ou sou eu que estou mal, ou realmente alguém anda a dormir neste maravilhoso mundo da 7ª arte. O filme não estreou em Portugal, assim como em muitos outros países e teve pouquíssimas salas a exibi-lo. Foi ignorado pela maior parte dos grandes prémios do cinema. Ainda assim, foi premiado por alguns festivais que reconheceram aquilo que eu reconheci, grandes interpretações, um grande argumento e um filme muito bem conseguido com o menor dos orçamentos. E visto que não tenho nenhuma adoração de estimação por Damien Harris, acho que consegui aqui uma crítica sem fanatismos e fora de suspeitas.

Aconselho este grande filme a todos vocês. Procurem bem em todos os videoclubes que hão-de encontrá-lo!

EXAME

Realização: 9/10
Actores: 10/10
Argumento/Enredo: 8/10
Duração/Conteúdo: 10/10
Transmissão da ideia principal do filme para o espectador: 10/10

Média Global: 9.4/10

Crítica feita por Pedro Gonçalves

Informação



Título Original:
"Gardens Of The Night"
Ano: 2008
Realização: Damien Harris
Actores: Gillian Jacobs, Evan Ross, Jeremy Sisto, John Malkovich, Harold Perrineau, Tom Arnold, Kevin Zegers

Trailer do Filme:

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