terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Moon (2009)


"250,000 miles from home, the hardest thing to face...is yourself."

Mal me conseguia lembrar da última vez que um filme de Ficção Científica tinha tido um efeito relevante em mim. Após a visualização de Moon, isso mudou. Longe do estereótipo hollywoodesco, o estreante realizador Duncan Jones presenteia-nos com um filme que se aproxima bastante das obras máximas de Ficção Científica: Solaris de Tarkovsky e 2001 A Space Odissey de Kubrick; deste modo, Moon contraria o conceito de Ficção Científica de hoje em dia, em que apenas os efeitos especiais parecem importar. Por motivos que nem sei bem designar, Moon não recebeu as tão merecidas nomeações pela Academia.

Num futuro próximo, a humanidade mina a Lua para obter 70% da energia consumida na Terra. O astronauta Sam Bell está há três anos numa nave na Lua, mas o seu contrato está prestes a terminar. Contudo, Sam Bell faz uma descoberta singular e pertubadora, que o faz questionar de si próprio e faz com que o regresso a casa seja adiado, com crescente sentido de paranóia.

O argumento é deslumbrante e estonteante, por parte de Nathan Parker. Somos confrontados com as pressuposições do auto-conhecimento, o processo de auto-entendimento da personagem principal, com códigos moralistas. É, na sua total conotação, uma revelação de identidade. Como disse à pouco, Duncan Jones (e filho de David Bowie) estreou-se na realização, e digo que é uma estreia inspiradora e gritante. Contam-se pelos dedos os realizadores que se conseguem estrear tão brilhantemente. O cineasta é convicto e sensibiliza-nos com uma moralidade, e uma consequente análise dessa, debatendo ideias sobre um futuro não tão distante com uma história singular como cenário; tentou fugir a clichés de Hollywood e criar algo interessante, uma narrativa num ambiente futurista, focando-se apenas na história. O inteligente choque entre os dois clones, Sam e Sam, e o desenvolvimento da sua amizade e a moral envolvida é fascinante.
O realizador fez claras referências a obras máximas de ficção científica, o ambiente criado e o clima psicológico são claros paralelismos que Duncan Jones faz. A vivência e perturbações da personagem Sam são facilmente análogas à dimensão filosófica de Solaris. Contudo, preciso referir que por ter evocação a alguns filmes não significa que seja repetitivo ou que tenha uma “fórmula clonada”, nada disso. Moon consegue ser mais do que um filme de Ficção Científica.

Devo também destacar a cinematografia. Gary Shaw foi perfeito, a fotografia está impressionante. O realizador fugiu ao máximo de efeitos visuais exagerados e de CGI, tendo como cenário principal a base lunar (que faz mesmo lembrar a obra de Kubrick) e joga com o clima psicológico que abala durante todo o filme. Esse mesmo desenvolvimento gradual do ambiente "pesado" é perfeitamente conjugado com prodigiosa banda sonora de Clint Mansell.
O actor Sam Rockewell é o filme, sustentou-o, tem uma interpretação notável! Nunca foi nomeado para os Óscares, e injustamente. Com Moon, Sam Rockwell veio provar que merece de uma vez por todas a estatueta dourada. O actor brinda-nos com uma interpretação emocional, física, psicológica: diligente e multi-facetado, testa-se e temos aqui a prova absoluta do seu magnífico talento.

Em suma, Moon revela-se um magnífico filme do cineasta Duncan Jones, que nos brinda com uma deslumbrante premissa explorada competentemente, uma estrondosa interpretação de Sam Rockwell e gritante banda sonora de Mansell. Como pontos negativos, não que concorde particularmente: talvez a falta de "acção" que pode não ser muito estimulante, e o facto de poder ser um pouco confuso.
Prevejo que Moon é o próximo detentor de "clássica obra-prima" e que Duncan Jones será considerado um génio do Cinema. Contudo, esperemos que Moon ultrapasse o teste do tempo.


EXAME

Realização: 9/10
Actores: 10/10
Argumento/Enredo: 8/10
Duração/Conteúdo: 8/10
Efeitos/Fotografia: 9/10
Banda Sonora: 9/10
Transmissão da principal ideia do filme para o espectador: 7/10

Média global: 8.5/10

Crítica feita por Joana Queiroz

Informação

Título em português: Moon – O Outro Lado da Lua
Título original: Moon
Ano: 2009
Realização: Duncan Jones
Actores: Sam Rockwell, Kevin Spacey e Dominique McElligott

Trailer do filme:


7 comentários:

  1. *Spoiler alert*

    Gostei de ver o filme, o actor esteve mesmo muito bem. A história conseguiu cativar-me. No entanto, ao início estava com algum "medo" de ser demasiado parado ou secante. Mas com o desenvolver da história, provou ser do meu interesse. A história foca uma exploração contínua de clones de Sam Bell (o qual lucrou ao deixar-se ser clonado), que no filme são utilizados individualmente e como ferramentas para gerir a exploração mineira na Lua.

    A banda sonora de Clint Mansell combina mesmo muito bem com o filme (com o seu tema), dá-lhe um grande toque de arrepios (no meu casso assim foi).

    Adorei ver neste filme em evidência não só a ficção científica (clones, exploração mineira da Lua, bases lunares e etc), mas também a realidade do nosso dia-a-dia que consiste na exploração do ser humano pelo ser humano. Empresas, por vezes até multinacionais, ou governos que têm o lucro à frente de qualquer vida (excepto a dos que estão no topo da pirâmide das classes).

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  2. É com grande mestria que Clint Mansell dá música ao filme, e realmente arrepia, e acompanha mesmo o suspense e a psicologia de todo o filme.
    A história cativou-me imenso também; sim, sou suspeita por gostar do género, mas a Ficção Científica tem vindo a desiludir-me, e Moon constituiu algo vibrante para mim, constituindo agora um dos meus filmes de eleição.
    Realmente, há sempre a tendência do "parado" ou "secante", porque de facto não há muita acção per se, mas acho que a atmosfera criada gera muito interesse em saber o que é que se passará a seguir ou então como é que vai acabar.
    Sam Rockewell devia ter sido nomeado nesse ano... não estou a dizer que Jeff Bridges não devia ter ganho (com Crazy Heart), mas uma nomeação não calhava nada mal.

    Não podia concordar mais com o teu último parágrafo.

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  3. Boa crítica, e estou de acordo com a pontuação que deste. Concordo com o primeiro comentário, ao início também estava com algum receio de ser demasiado parado ou secante. Mas captou o meu interesse também, há medida que a história foi sendo desenvolvida.

    Em relação a Sam Rockwell: já devia ter ganho um Óscar há muito, já viram Confessions of a Dangerous Mind ou então Choke?! Não é só com Moon, Sam Rockwell é um talento não reconhecido.

    Cumprimentos

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  4. O filme é genial e infelizmente foi mais um daqueles que passou de certa forma despercebido. A interpretação de Rockwell, que leva literalmente o filme às costas, então nem se fala. Já há muito tempo que não via um filme de ficção científica tão bom e foi um dos filmes que mais gostei de ver no ano passado.

    Cumprimentos

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  5. Não tinha ouvido falar deste filme mas depois desta boa crónica quero ver.. até porque sempre gostei de temas futurísticos e de mistérios da Lua.

    Frank and Hall's Stuff

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  6. @ Anónimo: Vi Confessions of a Dangerous Mind e gostei imenso. De facto, Sam Rockwell é um talento não reconhecido, mas isso deverá mudar, com tantas provas absolutas de talento que o actor nos proporcionou. Apenas acho que com Moon Sam Rockwell teve mais à vista do público.

    @ O Projeccionista: Passou despercebido sim, infelizmente. Rockwell é soberbo, e Moon constituiu uma grande contribuição para o género de Ficção Científica.

    @ Ricardo: Muito obrigada =). Se gostas de temas futurísticos e filmes que abordam a temática de mistérios na Lua, deves gostar imenso, recomendo vivamente!

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  7. As transmissões da base lunar sob o aspecto estrutural parecem consistir um sequenciamento do novo estagio evolutivo; evidentemente que a seleção de grupos não considerando os desvios de comportamento dificulta a concepção de interação de maior desenvolvimento.

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