domingo, 3 de março de 2013

A Quarta Divisão (2013)


A falta de enaltecimento do cinema português pode não ser alvo de queixas... mas causa vítimas...

Como cinéfilo mas, antes de mais, como português, sou daquelas pessoas que sente grande necessidade de gritar aos 7 ventos quando vê uma boa obra escrita, produzida, realizada e representada na língua de Camões. "A Quarta Divisão" faz por se desprender dos negativos estereótipos em que o cinema português se mergulhou desde o início deste milénio. Se quando comparado a muitos congéneres europeus estas película é "boa", dentro do panorama lusitano é de facto um filme sólido, captivante, bem ritmado e que tenta passar uma mensagem ao longo do seu visionamento. Ou seja, até é um filme de qualidade média-alta.

O filme retrata o desaparecimento de uma criança de 9 anos (Martim Cabral e Melo) do colégio privado onde estuda. A Quarta Divisão da Polícia monta uma grande operação de busca por toda a cidade para o encontrar. Todas as hipóteses são possíveis: O que aconteceu? Este é o ponto de partida para uma complexa teia de acontecimentos, que vai revelar a verdadeira faceta de quem menos se espera.

Enfim, para os mais cépticos quanto ao cinema nacional, farei convosco o exercício contrário- em vez de começar por elogiar o filme por si mesmo, fá-lo-ei por comparação ao que se espera de um filme europeu. Assim, este filme tem uma boa fotografia, óptimos planos de câmara, uma montagem mutíssimo bem conseguida (tanto em termos do planos escolhidos, assim como da utilização da técnica do slow motion, mas principalmente quanto ao ritmo que cria para a película) e uma banda sonora que acompanha a história adequadamente.

Now that I have your attention, vamos então aos verdadeiros trunfos deste filme: o argumento, os actores e a realização em geral. Quanto ao argumento, o produtor Tino Navarro conseguiu fazer algo majestoso: iniciar o filme com uma mensagem que depois parece saír de cena, mas que continua a acompanhar o filme todo, ao mesmo tempo que introduz outros temas relacionados que são de grande preocupação social (mais não digo, para não estragar a experiência).

Os actores são muito competentes. Carla Chambel carrega o filme muito bem, enquanto inspectora da PSP que não larga o caso do desaparecimento do miúdo por nada, apesar de já estar fora de horas de trabalho e de ter combinado ir a uma Manifestação de Polícias por melhores condições de trabalho (sim, Tino Navarro consegue situar o filme na actualidade e explorar mais uma oportunidade de realizar crítica social). A meio do filme percebemos que este é um caso pessoal para ela, o que traz profundidade à sua personagem. O seu colega principal (representado por Sabri Lucas) também está muito bem conseguido. No fundo, todos os polícias estão interessantes, pois mostram diversas facetas de uma mesma força policial, tornando o retrato heterogéneo, rico e realista. Enfim, todo o elenco secundário faz um trabalho adequado. Diria que o maior problema mesmo, é o rapaz que faz de Martim (que, coincidentemente, se chama Martim), que nem sempre mostra as emoções como devia.. No entanto, podia ser bem pior.

No meio disto tudo, o realizador Joaquim Leitão consegue dirigir uma história interessante, enigmática, bem ritmada e com alguma crítica social à mistura. O espectador fará ele próprio por tentar resolver o mistério, ao mesmo tempo que se sentirá repugnado por aquilo que algumas pessoas conseguem fazer, mas tocado pela persistência e vontade de lutar de outras.

Quanto a mim, fico tocado pela clara evolução em que o cinema português caminha, no sentido do conteúdo substâncial e não do invólucro visual (vejam-se, só para citar os mais recentes, filmes como Sangue do meu Sangue ou Tabu). Repugna-me a ideia pré-formada de que o que fazemos é mau, ao mesmo tempo que aquilo que se decide ver é o que de facto mancha o bom potencial da ficção portuguesa. É que, para mim, o problema do cinema português não é um de fins, mas sim de meios, nem um problema de criatividade, mas de oportunidade.
Quanto ao produtor Tino Navarro, que venham mais oportunidades de trazer para o ecrã experiências como esta. Quanto a vós, se se sentem na posição e vontade de mudar a rotina (a vossa e a da nossa 7ª Arte) e dar entre 5-6 euros por um bilhete para ver um filme diferente e que nos retrata, fica a vosso critério.

EXAME

Realização: 8/10
Actores: 7.5/10
Argumento/Enredo: 8/10
Banda sonora: 7.5/10
Duração/Conteúdo: 8/10
Transmissão da principal ideia do filme para o espectador: 9/10

Média global: 8/10

Crítica feita por Rodrigo Mourão

Informação

Título original: A Quarta Divisão
Ano: 2013
Realização: Joaquim Leitão
Produção e Argumento: Tino Navarro
Actores:  Carla Chambel, Sabri Lucas, Paulo Pires, Cristina Câmara, Adriano Luz, Martim Barbeiro, Heitor Lourenço

Trailer do filme:








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