terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Blindness - Ensaio sobre a Cegueira (2008)

"You'll never see it coming."

Imaginem que ficavam cegos de um dia para o outro. Imaginem que deixavam de poder ver a pessoa que amavam, a vossa casa, a vossa rua, os vossos vizinhos. Imaginem que os vossos dedos passavam a ser os vossos olhos. Tentem imaginar, mas se não o quiserem fazer, procurem uma sala em que ainda se exiba "Ensaio Sobre a Cegueira", ou esperem pelo DVD, garanto-vos, conseguiram realizar um pouco da experiência de ser cego, pior, do facto de ficar cego de um dia para o outro, sem explicação.

Depois de "Cidade de Deus" e "Fiel Jardineiro", Fernando Meirelles brinda-nos como uma verdadeira obra-prima, com uma visão soberba do mundo, uma visão que todos deveriamos ter, mas que nunca passará do grande ou do pequeno ecrã. Certa manhã, o mundo acorda para enfrentar uma epidemia facilmente contagiosa que ataca directamente a visão. O filme incide sobre o percurso de cerca de 20 personagens enquanto enfrentam esta epidemia. Não vou destacar a essência da história, muito menos tentar contá-la, é difícil contá-la, mas só para não ser desagradável, o filme desenrola-se num estabelecimento de quarentena, enquanto um enorme grupo de cegos entregues a si próprios tenta sobreviver à loucura de não conseguir ver aquilo que durante uma vida inteira conseguiu. Os cegos estão divididos em três camaratas e rapidamente se estabelecem hierarquias e elos de ligação e cooperação, rapidamente a pior faceta do ser humano começa a despertar. No entanto, os planos dos possuidores de uma pistola e líderes da cega hierarquia são sempre contrariados por uma cega fingida, Julianne Moore que é imune ao vírus e que tem neste esplêndido filme uma das suas maiores interpretações.

Não vou adiantar mais sobre o conteúdo do filme, não vou estragar a vossa curiosidade em relação ao filme. Vou apenas falar da gigante e importante mensagem do filme que só conseguirão perceber aqueles que virem o filme com "olhos de ver" e se esquecerem de questões desnecessárias como "de onde vem a epidemia? não é explicado!", poupem-me, se estão a espera de um "Resident Evil", desiludam-se e aluguem o "Serpentes a Bordo". Fernando Meirelles incute no filme, através da brilhante interpretação de Danny Glover, uma excelente mensagem que transmite que aqueles seres apenas perderam o seu sentido físico da visão, todos eles conseguiram manter os mesmos parâmetros de um dia normal, as mesmas atitudes, os mesmos gestos, as mesmas reacções, adaptadas a uma nova incapacidade. A essência d
o filme não está em saber de onde vem a epidemia, onde acontece e porque acontece, está em perceber que ela acontece todos os dias, connosco, actores de uma cegueira social a nível mundial, nós que nos achamos tão correctos e bons e ignoramos as questões e as pessoas que realmente importam.

Porquê esta teoria? Porque a personagem de Julianne Moore (não são revelados os nomes de nenhuma personagem) enche-se de importância para todos os cegos, é o guia deles, é uma mais valia, a garantia de uma vida minimamente digna. E se todos os cegos recuperassem a visão? Será que o papel social dela neste grupo seria o mesmo? Será que a sua pessoa iria ter a mesma importância que tivera naqueles dias epidémicos? Entre outras, está é uma das mensagens do filme, transmitida de uma forma explêndida e rica através de um argumento escrito de uma forma perfeita. Vejam o filme, se há filme que não podem perder é este, é indespensável a qualquer ser humano. Adaptado da obra de José Saramago, "Ensaio Sobre a Cegueira" conta com soberbas interpretações de Julianne Moore, Mark Ruffallo, Gael Garcia Bernal, Alice Braga, Iusuke Isseya e Danny Glover e honra cada letra escrita pelo premiado escritor português. Não vou dizer mais nada, juro-vos é daqueles filmes que ninguém consegue explicar aquilo que realmente sentiu ao vê-lo, é especial, é diferente. Mais uma grande obra de Fernando Meirelles que explora planos de câmara quase perfeitos, exige a "maior cegueira" possível em todas as acções dos actores, concebe cenas ricas de emoção e carregadas de brutalidade, sem dispensar a sua habitual pitada de ironia, o filme do ano na minha perspectiva.

Há quem critique a falta de música, eu não, está perfeito assim. Estou a dizer que me vou calar há muito tempo, mas tenho mesmo de me calar, senão não paro, peço-vos só mais uma vez, vejam o filme, nem que seja para o odiarem, para se sentirem frustrados, vale a pena ver o filme, até porque pior cego é aquele que não quer ver.

EXAME

Realização: 10/10
Actores: 9/10
Argumento/Enredo: 10/10
Banda Sonora: N/D
Duração/Conteúdo: 9/10
Transmissão da principal ideia do filme para o espectador: 10/10

Média Global: 9.6/10

Crítica feita por Pedro Gonçalves


Informação

Título em português: Ensaio sobre a Cegueira
Título original: Blindness
Ano: 2008
Argumento: José Saramago
Realização: Fernando Meirelles
Actores: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Danny Glover

Trailer do filme:







2 comentários:

  1. Achei bem!
    Para quem leu o livro... tá muito bem conseguido o filme! (or not...)

    ResponderEliminar
  2. Porque é que o Pedro tem sempre propensão para exagerar em tudo?
    O filme está bom, muito bom, mas não é de nota 10.
    A mensagem pode estar muito bem conseguida, e está. Mas o 10 geral é um exagero.

    ResponderEliminar